segunda-feira, 8 de agosto de 2011

São (somos) mesmo Mansos....

São Mansos

A mansidão. É um dos tiques mais imbecis do animal nativo de cá. A mansidão, o conformismo, a plácida assunção da fatalidade e do destino. A inevitabilidade. Talvez nem sejam bem tiques, estes. Talvez até sejam deformidades que têm mais a ver com a própria formação genética do bicho. Coisas do foro da personalidade e nãoda alçada da psiquiatria. Certo é que a parvulez ideológica do Estado Novo pegou nestes defeitos originais e soube reaproveitá- los de forma quase sublime. Fabricando em série indivíduos amorfos. Autómatos. Fadistas do infortúnio e da indiferença. E fê-los de tal forma bem feitos que, para espanto geral, quando a fábrica da outra senhora foi desmontada, não se notou qualquer tipo de abalo na produção dos seres apáticos que lá se faziam e se continuaram a fazer e que ainda hoje se fazem. E só assim se explica a borreguice com que um povo inteiro aceitou ser conduzido ao abismo pelo bolo rei de Cavaco, pelo beatismo de Guterres, pelo pântano de Durão, pela tanga do senhor Lopes ou pelos porreiros enredos do Zé, pá. Há uma jovem guarda de tecnocratas acabadinha de chegar ao poder em Portugal. Tipos que vão, montados em lambretas e em nome da sacrossanta dívida soberana, desmembrar o estado social e espatifar a Constituição da República naquilo que ela ainda guarda de humanidade. E qual está a ser a reação do boneco português? Nenhuma, evidentemente. Ainda que se saiba, nem que seja pela postura frontal dos outros, lá fora, que os únicos aprestos que restarão depois da passagem dotsunami social que se anuncia são precisamente a insurgência, a revolta, o grito. Numa palavra, a cidadania. Mas será que toda esta mansidão nos deixará um dia ser cidadãos de verdade?
(Editorial de Paulo Barriga na edição 1528 do “Diário do Alentejo”, de 5 de Agosto de 2011)

Sem comentários:

Enviar um comentário